Dizem que encolhemos à medida em que envelhecemos. De fato, existe um diminuimento geral, mas o que mais encolhe mesmo é a família. Vamos perdendo um a um na certeza/tristeza de que o processo não cessa. E é aquela coisa: com ou sem aviso prévio, a morte é um susto inevitável.
De um ano pra cá, minha mãe travou uma batalha contra esse encolhimento. Depois de tratar e se curar de dois tipos de câncer, ela conviveu com a dor dos outros. Em maio do ano passado, foi meu primo Marco, que caiu morto enquanto fazia uma caminhada - deixando minha tia Nilce desconsolada. Logo depois, meu pai foi embora - e Norma entrou na tristeza da tristeza. Levantou, porque ela é mesmo muito forte, mas rapidamente precisou voltar à (terrível) sala de velório da Terra Branca. A cunhada-quase-irmã foi embora em janeiro. E nesta madrugada, mais uma dor: tia Alice, a irmã mais velha dos Nemes, não aguentou mais. Foram meses na cama... Eu fui vê-la nas duas últimas vezes em que estive em Bauru.
Puro encolhimento. Puro sofrimento. Ou, talvez, algum tipo de crescimento para nós, ignorantes espirituais que não sabemos lidar com a morte.
Hoje acordei pequena demais.
terça-feira, 12 de abril de 2011
quinta-feira, 7 de abril de 2011
A dita, 47 anos depois
Foi difícil ficar ausente da discussão dos últimos dias sobre a ditadura civil-miliar que veio com o golpe de 1º. de abril de 64. Se foi dia 31 de março ou até antes, prefiro registrar a ironia da data, já que o fato foi auto-conclamado de “revolução”. Mentira – e das bravas.
Para mim, o tema aparece recorrentemente – queira eu ou não. Na verdade, sempre quero, apesar da taquicardia que me invade quando a questão aparece na minha frente. Mistura a inveja de uma geração tão intensa e unida com o inconformismo de tamanha(s) violência(s). Para quem também se interessa, uma lista recente do tema:
- Carta Capital desta semana sobre o tema. Ainda não comprei então me abstenho de comentários detalhados – é sugestão de Fabrício. Mas confio neles. Mino Carta, o editor da revista, viveu na pele a censura quando estava na iniciante Veja. Chegou a desligar os telefones da redação em uma sexta-feira para poder fazer circular a famosa reportagem de capa sobre tortura. A revista foi apreendida no dia seguinte, claro.
- Ficção-ambientada? Há uns bons meses, li que um filme estava sendo feito sobre o assunto. Seria sobre o final dos anos 70, em meio ao Dancin' Days, e na ressaca de alguns torturados. Se não me engano, o nome é “A novela das oito”. Como o assunto fica sempre restrito ao gênero documentário, acho que vale a pena ver como um diretor insere uma estória na história.
A segunda ficção-ambientada foi, para mim, chocante. Cheguei da aula noturna da UEL na terça-feira com minha mãe me ligando para eu ver a novela do SBT. What? Norma não é fã do canal do Sílvio Santos e, somente graças ao controle remoto, caiu no assunto. Assim que liguei a tv, percebi que era sobre a ditadura. Fui para a internet pesquisar e, de fato, é uma novela sobre o período que antecede o golpe até a guerrilha do Araguaia (previsão inicial do autor Tiago Santiago). Talvez, vá até a morte de Vlado. Chama-se “Amor e Revolução”. É a história totalmente fictícia de um casal apaixonado meio Romeu e Julieta – ele, filho (inconformado) de militares; ela, de família comunista – mas marcada pelos fatos daquela época. Todas as notícias e declarações “oficiais” feitas na novela são verdadeiras – extraídas dos arquivos existentes e abertos. Outro detalhe: ao final de todos os capítulos, pessoas que se envolveram com a ditadura dão seus depoimentos. Vamos ver no que dá.
- Os documentários que recentemente assisti e que mais me marcaram.
1º. Hércules 56 (de Silvio Dá-Rin; 2006), fornecido pelo querido Beto, e que discute o sequestro do embaixador americano com riqueza historiográfica. A questão da memória está ali, se mostrando em toda sua força e fragilidade. Já vi mais de três vezes.
2º. Cidadão Boilesen (de Chaim Litewski), recente, de 2009. Toca em um ponto inexplorado e sensível da ditadura: o envolvimento das empresas na “caça aos comunas”. É até fácil botar a culpa nos militares, apenas. Mas a rede de relações que foram traçadas ali são bem mais complexas. E o documentário consegue mostrar isso com uma trilha alucinante e uma boa recuperação de imagens documentais e de cenas do cinema brasileiro.
3º. Dzi Croquettes (de Tatiana Issa e Raphael Alvarez) é só indicar. Acho que todos podem gostar dos 13 bailarinos que montaram um show/teatro/circo absolutamente irreverente. Pan-mega-global-sexuais, os artistas fugiram do Brasil no que eu chamo de auto-exílio. Foi lançado ano passado.
Para mim, o tema aparece recorrentemente – queira eu ou não. Na verdade, sempre quero, apesar da taquicardia que me invade quando a questão aparece na minha frente. Mistura a inveja de uma geração tão intensa e unida com o inconformismo de tamanha(s) violência(s). Para quem também se interessa, uma lista recente do tema:
- Carta Capital desta semana sobre o tema. Ainda não comprei então me abstenho de comentários detalhados – é sugestão de Fabrício. Mas confio neles. Mino Carta, o editor da revista, viveu na pele a censura quando estava na iniciante Veja. Chegou a desligar os telefones da redação em uma sexta-feira para poder fazer circular a famosa reportagem de capa sobre tortura. A revista foi apreendida no dia seguinte, claro.
- Ficção-ambientada? Há uns bons meses, li que um filme estava sendo feito sobre o assunto. Seria sobre o final dos anos 70, em meio ao Dancin' Days, e na ressaca de alguns torturados. Se não me engano, o nome é “A novela das oito”. Como o assunto fica sempre restrito ao gênero documentário, acho que vale a pena ver como um diretor insere uma estória na história.
A segunda ficção-ambientada foi, para mim, chocante. Cheguei da aula noturna da UEL na terça-feira com minha mãe me ligando para eu ver a novela do SBT. What? Norma não é fã do canal do Sílvio Santos e, somente graças ao controle remoto, caiu no assunto. Assim que liguei a tv, percebi que era sobre a ditadura. Fui para a internet pesquisar e, de fato, é uma novela sobre o período que antecede o golpe até a guerrilha do Araguaia (previsão inicial do autor Tiago Santiago). Talvez, vá até a morte de Vlado. Chama-se “Amor e Revolução”. É a história totalmente fictícia de um casal apaixonado meio Romeu e Julieta – ele, filho (inconformado) de militares; ela, de família comunista – mas marcada pelos fatos daquela época. Todas as notícias e declarações “oficiais” feitas na novela são verdadeiras – extraídas dos arquivos existentes e abertos. Outro detalhe: ao final de todos os capítulos, pessoas que se envolveram com a ditadura dão seus depoimentos. Vamos ver no que dá.
- Os documentários que recentemente assisti e que mais me marcaram.
1º. Hércules 56 (de Silvio Dá-Rin; 2006), fornecido pelo querido Beto, e que discute o sequestro do embaixador americano com riqueza historiográfica. A questão da memória está ali, se mostrando em toda sua força e fragilidade. Já vi mais de três vezes.
2º. Cidadão Boilesen (de Chaim Litewski), recente, de 2009. Toca em um ponto inexplorado e sensível da ditadura: o envolvimento das empresas na “caça aos comunas”. É até fácil botar a culpa nos militares, apenas. Mas a rede de relações que foram traçadas ali são bem mais complexas. E o documentário consegue mostrar isso com uma trilha alucinante e uma boa recuperação de imagens documentais e de cenas do cinema brasileiro.
3º. Dzi Croquettes (de Tatiana Issa e Raphael Alvarez) é só indicar. Acho que todos podem gostar dos 13 bailarinos que montaram um show/teatro/circo absolutamente irreverente. Pan-mega-global-sexuais, os artistas fugiram do Brasil no que eu chamo de auto-exílio. Foi lançado ano passado.
segunda-feira, 21 de março de 2011
Obama re-visitado
Se teve um fato recente que foi extremamente inter-mediado pelos meios de comunicação nos últimos anos (quicá, décadas) foi o final de semana do Obama no Brasil. Só quem chegou um pouco closer foram os jornalistas.
E um deles conta o que rolou de dentro: Rodrigo Vianna, que mostra como a subjetividade é importante para o jornalismo. Seu Blog do Escrivinhador deveria estar na bibliografia de todas as escolas porque discute - e bem - e muito - os meios de comunicação.
http://www.rodrigovianna.com.br/palavra-minha/o-cristo-e-dos-gringos-psh-psh-chefe-dos-cruzados-vai-ao-redentor.html#more-7229
E um deles conta o que rolou de dentro: Rodrigo Vianna, que mostra como a subjetividade é importante para o jornalismo. Seu Blog do Escrivinhador deveria estar na bibliografia de todas as escolas porque discute - e bem - e muito - os meios de comunicação.
http://www.rodrigovianna.com.br/palavra-minha/o-cristo-e-dos-gringos-psh-psh-chefe-dos-cruzados-vai-ao-redentor.html#more-7229
Ainda sobre Itacaré – a Shú
O que fazer com uma cachorra que, quando afastada de seu protetor, para de comer, se arranha toda, esfrega o rosto no seu tapete até tirar sangue? Pois é, a minha é assim. Detalhe: antes de viajar em janeiro, deixei todo um schedule de pessoas que visitariam, cuidariam e dormiriam na minha casa com a cã. Mesmo assim, ela surtou.
Para a viagem de Itacaré, saí de Bauru no sábado e voltei na noite do domingo seguinte. Uma semaninha apenas, mas já na segunda-feira Shú parou de comer. Soninha, minha half-sister, chegou ao meu apartamento no final da tarde com pão francês que a canina ama e toda a disposição para assistir tv, brincar e dormir ali. Shú cheirou a iguaria e voltou para sua cama, triste e dramática – como a Sô definiu.
Durante a semana, os relatos sobre minha cachorra só pioravam. Roberto, o porteiro-amigo, dizia que ela se esfregava no meu carro e estava se machucando... A vizinha contou que Shú latiu uma noite in-tei-ri-nha (detalhe: shar-peis simplesmente não latem). E o que fazer quando se tem o mar, vários quilômetros e uma semana apenas pela frente? Impotência total. Aceitei.
Mas, na sexta-feira, veio a bomba: Roberto a encontrou, logo cedo, toda sangrando, toda arranhada, e com pelotas vermelhas por toda a fuça. Minha mãe, mais que rápido, chamou a veterinária-vizinha do prédio. Eu na praia da Concha, tomando vinho com Paola e o mineiro-carioca Márcio... e Shú lá, toda desconcertada no antiinflamatório.
Quando voltei pra Bauru e entrei em casa, vi uma cachorra que parecia ser moradora de rua. E o pote do comida lá, cheio. Mas foi só eu perguntar pra ela se ela não queria comer para Shú voltar ao seu apetite natural. Sarou em um minuto; comeu o pote todo! E eu, vendo aquela alegria toda de quem talvez nem sobreviva se passar algumas semanas sem mim, perdi minha fome.
Não sei o que fazer com esse amor maravilhoso que os cachorros desenvolvem por quem cuida deles – mas que é, em alguns casos, dependente demais. Ela não sabia que eu ia voltar, não podia falar comigo nem receber torpedos... E Shú, como já disse aqui, é minha caricatura. Ansiosa ao extremo, ama poucas pessoas – mas quando ama, é de verdade. No caso dela, é em demasia. Sofre, claro, e a única solução é tomar florais, já que ela, diferentemente de mim, não tem o hábito relaxante de encontrar os amigos, ler um bom livro, assistir a bons filmes, almoçar com a sobrinha e família, curtir um vinho, viajar pra Itacaré...
sábado, 19 de fevereiro de 2011
quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011
Eu, baiana
Depois de Itacaré, dei de achar o ritmo e os valores da vida no Sul/Sudeste bem bestas. Tem a ver com a natureza, a história e a leveza de se viver de chinelo. E, claro, com a Cris Guedes, amiga querida que nos rodopiou por Ilhéus, junto com a filha Maria, serelepe linda com pouco mais de um ano, e nos levou para a pousada a 60 km de lá. A dentista é formada pela USC, e desde sempre fez trabalhos sociais. E foi seguindo este caminho que ela virou minha baiana predileta.
Cris tem uma vida difícil por estar longe da família, mas, ao mesmo tempo, tranquila. Todos lá parecem bem mais calmos do que qualquer um dos que me circulam (me inclusive). E é uma tranquilidade intensa – porque ninguém de lá me pareceu morno, não. As crianças são exemplo maior: todas são soltas, simples, simpáticas, interessadas, graciosas...
Fora a beleza estonteante das praias, coqueiros e mangues (cenário que traz uma espiritualidade incrível), Itacaré foi também cheia de gente interessante. Tinha o cara que andava com a sua bike-rádio tocando o maior som e anunciando as festas, bares e shows daqueles pequenos redutos. Tinha o italiano dono da barraca dos Latinos, na praia da Concha, muito gentil, que nos serviu com diferentes vinhos em uma tarde deliciosa. O Kurisco – guia mais gente boa, que deu uma pernada na cidade com a gente, mostrando os lugares históricos e um belo pôr-do-sol. O casal Ingrid e Marcelo, que viraram amigos instantaneamente no passeio pela península de Maruá. E, claro, os três mosqueteiros do bar Maluca Beleza, na orla de Itacaré: o brasileiríssimo Fabrício, o irlandês Steven e o londrino Louis, que tocavam Manu Chao e Seu Jorge.
E tiveram os momentos de calmaria na praia, de conversa com vinho, lá e na piscina da pousada tão gostosa, tão cheia de gente bacana, entre Paola e eu. Ah, como conseguimos nos divertir, aproveitar, contar histórias do passado, construir histórias novas. Privilégio de poucas amigas. Comemoramos muito bem nossos 22 anos de amizade.
Eu e Pá percebemos com profundidade a visão dessas pessoas que já moraram em cidades grandes, mas que optaram por uma vida mais tranqüila. Porque de alguma forma, perto do mar, o ritmo é mais calmo, mais belo, mais natural, mais histórico... Não sei se eu conseguiria viver por lá, mas com certeza é uma bela ideia que ficará guardadinha em mim.
O duro foi, no domingo cedo, chegar ao aeroporto Jorge Amado, em Ilhéus, e não achar o jornal do dia.
_ Não vem jornal hoje?
_ Ah, moça, vem sim, mas tem dia que só chega umas 11h da manhã. Vai levar o de ontem?
Relaxei, comprei a edição de sábado, e só então fiquei sabendo que o bicho estava pegando no Egito.
Itacaré me deixou mais calma e mais segura. São várias e diversas formas de ser feliz.
terça-feira, 1 de fevereiro de 2011
Minhas duas Bahias

Se Trancoso é o Quadrado, Itacaré é a Pituba.
Se Trancoso é cheia de charme, Itacaré é cheia de (todo tipo de) gente.
Se Trancoso é diurna, Itacaré é, também, noturníssima.
Se Trancoso é cheia de charme, Itacaré é cheia de (todo tipo de) gente.
Se Trancoso é diurna, Itacaré é, também, noturníssima.
Se em Trancoso você precisa andar quilômetros para chegar às praias, em Itacaré, elas ficam logo ali.
Se Trancoso tem uma culinária realmente especial, Itacaré tem quase de tudo.
Se Trancoso é na Costa do Descobrimento, Itacaré é na Costa do Cacau, que Cacau!
Se Trancoso tem uma culinária realmente especial, Itacaré tem quase de tudo.
Se Trancoso é na Costa do Descobrimento, Itacaré é na Costa do Cacau, que Cacau!
Se Trancoso trata os cachorros como pessoas, em Itacaré eles são só cachorros – e acham que coco é bolinha pra brincar.
Se em Trancoso tínhamos um grande quarto, em Itacaré quase não dormimos.
Se em Trancoso tínhamos um grande quarto, em Itacaré quase não dormimos.
Se Trancoso é a calma, Itacaré é surfe.
Se em Trancoso eu comi peixes, em Itacaré mergulhei para vê-los de perto - e bem vivos.
Se Trancoso é multilíngue, em Itacaré, todos arranham o seu português baiano.
Se em Trancoso nos divertimos e nos encantamos, em Itacaré também nos esbaldamos.
Se Trancoso é branca, Itacaré é belamente preta.
Se Trancoso é levemente elitista, Itacaré é predominantemente povo.
Se Trancoso é universal, Itacaré é incrivelmente baiana.
Se Trancoso é multilíngue, em Itacaré, todos arranham o seu português baiano.
Se em Trancoso nos divertimos e nos encantamos, em Itacaré também nos esbaldamos.
Se Trancoso é branca, Itacaré é belamente preta.
Se Trancoso é levemente elitista, Itacaré é predominantemente povo.
Se Trancoso é universal, Itacaré é incrivelmente baiana.
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